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01.03.2010
No passado dia 12 de Março
Auto da Barca do Inferno na Biblioteca Municipal

A Casa dos Afectos – Associação de Intervenção Cultural apresentou uma encenação do Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente, no auditório da Biblioteca Municipal de Cantanhede, no dia 12 de Março.


A iniciativa inseriu-se no programa de actividades culturais e de incentivo à leitura da Biblioteca de Cantanhede, sendo dirigida a alunos e professores do 9º ano dos estabelecimentos de ensino do Concelho que têm no currículo escolar o Auto da Barca do Inferno como obra de leitura obrigatória na disciplina de Português.
 

Promovido no âmbito de uma parceria entre o Município de Cantanhede e as Escolas EB2/3 de Cantanhede, Febres e Tocha, da Escola Pedro Teixeira e do Centro de Estudos Educativos de Ançã, o espectáculo foi apresentado em duas sessões. À primeira , que se realizou de manhã, assistiram os alunos do 9º ano da EB 2/3 de Cantanhede e uma turma da EB 2/3 da Tocha. A segunda sessão realizou-se à tarde, neste caso para os jovens estudantes que frequentam o 9º ano da EB 2/3 Carlos de Oliveira, de Febres, da Escola Pedro Teixeira, de Cantanhede, do Centro de Estudos Educativo de Ançã e, ainda, outra turma da EB 2/3 da Tocha. No total, entre alunos e professores, estiveram presentes nas duas sessões cerca de 350 pessoas.

 

O Auto da Barca do Inferno é um espectáculo teatral com encenação e dramaturgia da responsabilidade de João Nuno Esteves e conta com a participação dos actores Rafael Dias Costa, Telmo Ramalho e Catarina Gouveia. A produção é de Casa dos Afectos, a concepção musical de José Manuel Almeida e os figurinos e adereços de Rita Santos. O som está a cargo de Carlos Jorge Bernardes e José Manuel Almeida.

 

Esta foi a segunda vez que A Casa dos Afectos – Associação de Intervenção Cultural apresentou o Auto da Barca do Inferno na Biblioteca Municipal de Cantanhede. A primeira, também no âmbito uma acção pedagógica dirigida a alunos do 9.º Ano, decorreu em 14 de Maio de 2009.

A Casa dos Afectos – Associação de Intervenção Cultural, grupo de teatro da Amadora apresentou em 2008, 2009 e em 2010, em Cantanhede a adaptação teatral da obra de José Saramago, Memorial do Convento, desta feita para os alunos do 12º ano, do Concelho.

Auto da Barca do Inferno

Considerado como uma verdadeira crónica de costumes da sociedade lisboeta do início do Século XVI, o Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente, foi representado pela primeira vez em 1517. É a primeira parte da chamada “trilogia das Barcas” em conjunto com o Auto da Barca do Purgatório e o Auto da Barca da Glória.

 

Sobre o espectáculo que A Casa dos Afectos – Associação de Intervenção Cultural vai apresentar na Biblioteca Municipal de Cantanhede, no próximo dia 14 de Maio, o encenador e actor João Nuno Esteves escreveu o seguinte texto:

 

O actor!

É ele, conjuntamente com o público, o elemento primordial e indispensável do Teatro. Ou conseguiremos fazê-lo sem ele?

Tarefa impossível.

Imaginemos uma criança recriando-se com as mais diversas personagens inventadas por si, como tantas vezes acontece, e chegaremos perto do prazer e da desinibição a que está sujeito um actor durante o período de construção das suas personagens. Porque não então transformar este texto de Mestre Gil Vicente num exercício lúdico mas rigoroso, em que os actores vão sucessivamente percorrendo as várias personagens, elas também aqui, paradigmas intemporais de tipos e tiques sociais ainda hoje bem presentes aos nossos olhos.

O bem e o mal, que constantemente perdem contornos definidos, numa total recusa de qualquer tipo de maniqueísmos, são afinal as diferentes faces de uma mesma moeda, por isso o anjo e o diabo são um único e mesmo marinheiro navegando ao sabor de uma nau imaginada, escada de degraus metafóricos da nossa própria vida, marcando o ritmo da nossa existência.

Os vários tipos sociais e humanos, unidos afinal pela mesma irrespondível ânsia, perante o eterno espectro que povoa a condição humana: a morte. Que pecado, se é que o conceito existe, não será redimido para lá dessa desconhecida mas constante presença? Tanto mundo e só uma pergunta. E depois? Os mitos escatológicos como forma de atenuar o vazio da resposta. Tantas personagens e um só actor, lúdico prazer da representação, clichés a que não está alheia a tão esquecida tradição do tipo revisteiro com toda a sua irreverência e humor.

E por fim, a mais humana e real das personagens. O simples homem reduzido à obrigação de viver, tendo como única referência a própria vida, despida de sentido de uma realidade que tantas vezes é mais imposta que real. Esse Parvo que somos também todos nós, sonhando como forma de enganar a própria morte e todas as redenções inventadas, redutoras do prazer que deve pautar a existência Humana.

João Nuno Esteves


Fonte: GIRP
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